Desde 1963 – e bem antes mesmo deste autor chegar ao planeta – ficava claro a proposta musical dos Beatles. A missão era mais ou menos a seguinte: fazer algo diferente, mesmo que isso custasse a popularidade conquistada com o álbum anterior.
Sorte, trabalho, talento, sucesso comercial e a posição dos astros jogaram a favor da banda. Por isso, poucas vezes erraram nos 13 álbuns produzidos pelos rapazes de Liverpool em apenas 7 anos de estúdio.
Assim, quando os Beatles acabaram e cada um dos quatro resolveu seguir um caminho solitário, as pessoas ficaram se questionando sobre o futuro: seriam os ex-beatles ousados ou tentariam copiar o que fizeram no passado para manter o reinado pop?
A resposta da equação veio dividida em quatro. Cada um deles navegou em mares diferentes. E cada um deles acertou e pecou por motivos diversos.
Para Paul McCartney, a idéia foi tentar não repetir a fórmula em busca de novos sons.
É fato que muitas vezes equívocos aconteceram. E não é necessário voltar a citar erros e acertos em seus 37 anos de carreira fora dos Fab Four.
Por desprezar sua herança com os Beatles, Paul pagou preços caros. A falta de edição e o excesso de ousadia lhe garantiram críticas nada agradáveis. Muitas delas, merecidas. Vamos combinar…
Memory Almost Full desemboca em 2007 com uma missão: manter a credibilidade de McCartney com crítica e público, em uma espécie de renascença criativa iniciada com Flaming Pie em 1997.
Após trabalhar no projeto Anthology, Paul decidiu trabalhar de uma forma compacta e eficiente. E com exceção do sucessor Driving Rain (2001) – um álbum de regular para bom – a sucessão de discos gravados por ele ratificam o processo de buscar qualidade ao invés de quantidade em cada canção.
Com Chaos And Creation In The Backyard (2005), a parceria com Nigel Godrich serviu principalmente para que suas composições saíssem mais breves e eficientes. Ao invés de faixas longas e repetitivas, poucas canções ultrapassaram os 3 minutos de duração. A fórmula eficiente surtiu resultado imediato, dando um gostinho de “quero mais” quando as canções acabavam. Tudo isso somado aos toques de melancolia das letras, e da costumeira criatividade ecoaram em elogios dos fãs e também da crítica. Até da ranzinza e quase sempre anti-Macca, Rolling Stone, que deu a Macca a capa da edição de setembro de 2005.
Surpresa
Para quem aguardava um replay da receita empregada em Chaos And Creation In The Backyard para Memory Almost Full (em menos de dois anos de intervalo entre os álbuns) trago aqui uma má notícia. À parte do bom senso em editar e controlar a qualidade das letras e melodias, Memory Almost Full é uma verdadeira antítese. Primeiro: não apresenta nem um décimo da melancolia das letras de Chaos. Com exceção de You Tell Me e The End Of The End (mais sobre elas em breve neste texto), a grande maioria das 13 memórias de MAF (só para
simplificar o nome do CD) tem um colorido que seu antecessor (mais sombrio e lento) não tinha.
A começar por Dance Tonight, faixa com sabor country e apelo infantil (a filha Beatrice não parava de dançar enquanto Paul tocava a música em seu bandolim no Natal de 2006). Digamos que o álbum começasse por All Together Now. Não que Dance Tonight seja parecida com a faixa lançada na trilha Yellow Submarine pelos Beatles. Mas o espírito é o mesmo.
Segunda lembrança de Memory Almost Full é Ever Present Past. Originalmente acústica, Paul e o produtor David Kahne deram ao número um pique mais dançante, com guitarras tocadas com pedal de volume (você se lembra de Getting Better?). Ever Present Past é grudenta. É uma daquelas melodias que se ama ou odeia, mas no final, todo mundo sai cantando.
See Your Sunshine, música seguinte, é a mais ensolarada do álbum. Dá para perceber a intenção de grudar duas melodias diferentes da música. A primeira delas, é soul, lembra Motown, com harmonias à moda Wings. Segunda parte é agressiva com piano marcante. Se acaso este não for o seu estilo e decidir pular a faixa, não cometa o sacrilégio de ignorar as linhas de contra-baixo tocadas por McCartney. É de se ouvir e parar para refletir. E agradecer a combinação de jazz, rock e soul no resultado (ultramelódico) final.
Quem reclamou da falta de pegada e já considerava Macca totalmente fora do cenário rock & roll em Chaos And Creation In The Backyard, foi pego desprevenido com Only Mama Knows. Opiniões de quem ouviu a música pela primeira vez remetem o clima de “Mama” aos arranjos usados em Back To The Egg (79), e no compacto Junior’s Farm (74). A faixa conta, mais ou menos assim, a história de uma criança abandonada em um aeroporto. Solidão e abandono, aliás, são temas populares no songbook de Paul McCartney. Vocais agressivos e falsete fazem parte do pacote em Only Mama Knows.
Contraste. Nem dá nem tempo para terminar de balançar a cabeleira com “Mama”. Sem perceber, You Tell Me invade o ambiente, em total contraste climático. Tapes invertidos, conversa de estúdio e um violão introduzem ao ouvinte o momento que McCartney olha para o passado, onde se lembra dos momentos marcantes vividos por ele. Principalmente no campo amoroso. E é para se suspeitar que os “verões sem chuva” recordados por ele nesta letra
não sejam mais recentes do que os vividos nos anos 70 com Linda McCartney. Repartem: as harmonias feitas pelos vocais de apoio, como resposta para as frases cantadas por Paul; elas são quase etéreas. Intocáveis. Suas cadeias harmônicas remetem ainda mais ao passado. Se esquecermos que é uma música feita por um inglês, um desavisado acharia que You Tell Me teria sido resgatada dos anos 40, com o melhor que o Choro era capaz de produzir por
aqui.
Quem é esse senhor Bellamy?
Se você vai gostar ou desprezar é uma coisa. Agora, não é possível conquistar o quanto de criatividade e inventividade é encontrado na sinistra Mr. Bellamy. Interpretações iniciais da letra davam como certa a história de que a letra seria sobre um gato que teria trepado em uma árvore, e que não queria sair de seu refúgio, de forma alguma. Outra visão mais apimentada:
Bellamy seria ninguém menos que o próprio Paul McCartney. Pergunta: estaria ele em uma árvore (ou na moita) rolando o seu popular cigarro básico em um momento de fuga da censura conjugal? Histórias propostas e negadas por McCartney. Ele preferiu dizer que Bellamy “seria um homem com problemas mentais que estaria fugindo da sociedade”. Sei.
O conteúdo musical é exuberante. Não dá para esconder a paixão por Bellamy. Parte do meio da composição foi preenchida por uma melodia composta por McCartney, inicialmente destinada a uma peça clássica. A variação de estilo e vozes em Mr. Bellamy arranca risadas e provoca um carrossel de emoções multicolorido. Não se sabe se você acha Bellamy um ser ridículo, divertido,
lunático ou simplesmente excêntrico. Talvez seja tudo isso. Algo meio esquizofrênico. Bem Paul McCartney: um cara capaz de criar a balada mais doce, o rock mais selvagem e misturar idéias conservadoras e vanguardistas em um só produto (às vezes isso confunde mesmo).
Em entrevista para o site oficial, Paul disse que Gratitude simboliza a gratidão pelas pessoas que o ajudaram e o apoiaram durante os anos, como a família e os fãs. Vamos logo às confissões: odiei Gratitude nas duas primeiras vezes que ouvi a música. Achei que Paul forçou a barra ao buscar climas de trabalhos como Oh Darling (Abbey Road) e Souvenir (Flaming Pie), principalmente no aspecto vocal. E mesmo não sendo “a faixa” de Memory, já deu para aceitar e entender o propósito de Gratitude. No mínimo, leva uma nota 6,5 pela verdade de intenções musicais e poéticas.
Agradecimentos à parte, chega a vez da tão anunciada “suíte” do CD. Para os amantes do vinil, o lado B de Memory Almost Full vai de Vintage Clothes, passando por That Was Me, Feet In The Clouds e House Of Wax até culminar com The End Of The End – a última “verdadeira” faixa do disco (…agora, vamos descontar a brincadeira Nod Your Head, né?).
Trata-se, aqui, com certeza, da maior confissão feita por um músico acusado de compor faixas comerciais, vazias, e sem cunho pessoal. Nem que parte deste comentário seja verídica, experimente comparar tudo já escrito por ele com as declarações feitas nas cinco canções do medley. Vintage Clothes, decorada com arranjos de melotron e riffs de piano nos remete à parte da revolução comportamental dos anos 60. Sim, ele participou dela!
That Was Me tinha tudo para ser um rock comum, à moda Matchbox ou Honey Don’t. Mas o piano distorcido de Wix quebra a monotonia. O ponto alto aqui é a letra: “este era eu no Mersey Beat (jornal de música pop de Liverpool) com a “banda”. (Qual seria a banda mesmo?). Como declarou Macca, os versos são compostos por uma “cadeia de memórias” da infância, adolescência e toda a juventude revolucionária vivida ao lado de John Lennon, George Harrison e Ringo Starr.
Dos últimos acordes de violão de That Was Me surge Feet In The Clouds. Com se saísse mesmo de uma nuvem branca, a voz conta histórias de como Paul se sentia nos tempos de colégio – as costumeiras dificuldades enfrentadas por um garoto, principalmente se ele estudasse na sombria e conservador Liverpool Institute, nos anos 50.
Após o arranjo vocal bem à moda dos Beach Boys em Pet Sounds, House Of Wax derruba a casa com versos poéticos que acusam: “a verdade está enterrada no jardim, e dentro das paredes”. Clima psicodélico e misterioso preenchido por três solos de guitarra (executados por McCartney) que lembram um pouco o Pink Floyd.
Parte final: The End Of The End.
Espaço em branco reservado para meditar um pouco. Quem curte Beatles há tempos, e mesmo quem começou a ouvir agora deveria parar um pouco para refletir sobre o silêncio; sobre o vazio que ficaria caso Paul McCartney morresse nesse mesmo instante. Agora. Sem chance de voltar ao tempo.
A letra fala sobre isso, sobre como ele gostaria de ser lembrado quando não estivesse mais entre nós. Mesmo que simbólico seja este tema, engole-se seco ao imaginar a falta de MAIS um Beatle no planeta.
Ele garante “Não há razão para sentir-se triste”. Depois assobia, disfarçando.
Suspeito que a maioria dos ouvintes vai discordar.
Maio 31, 2008 às 7:05 pm
olá.O último álbum do Paul Mc é ótimo.Realmente os antigos são melhores mas todos são bons!
O Paul mc é D+ e sou muito fã dele e eu gostaria de falar com ele.
E se alguém entrar em contado com ele diz que o CD é emocionante.