O coração todo escancarado de Paul McCartney

By Julian

Memory almost Full, memória quase cheia. O termo parece derivar do mundo tecnológico, dos computadores, mas é o título do novo disco de Paul McCartney, a cujo nome costuma preceder a designação ‘ex-beatle’.

‘O título do disco veio depois que terminei tudo. Para mim, é quando isso normalmente acontece, à exceção de Sgt. Peppers’, ele explicou, em texto que acompanha o álbum. ‘Eu estava pensando sobre o que poderia definir a coisa inteira e Memory almost Full veio à mente. É uma frase que parece abarcar a vida moderna; na vida moderna, nossos cérebros às vezes parecem um tanto sobrecarregados. Quando eu comecei a especular sobre essa idéia com alguns amigos, eles todos acharam diferentes significados para isso, mas todos adoraram a idéia. Então, a repercussão ajudou a solidificar o título’, contou Paul.

O álbum só chega às lojas no dia 5 de junho (selo Hear Music, da rede de cafeterias Starbucks). Mas o Estado já ouviu o disco inteiro, com exclusividade. Antes de qualquer coisa, é bom dizer: esse disco, o 21º de estúdio de Paul, não é tão bom quanto o anterior, Chaos and Creation in the Backyard (2005), produzido por Nigel Godrich, darling de Radiohead e Beck. Desta vez, o produtor é David Kahne (Strokes, Sublime e Bruce Springsteen).

O fato de o disco não ser tão bom não o descredencia a uma boa audição: como é de hábito, Paul McCartney lega pelo menos umas duas ou três obras-primas por disco para a posteridade, sejam pérolas do pop mais ordinário ou sofisticadas subversões de composição.

No caso, entre as 13 canções do álbum, três delas parecem agigantar-se frente às demais: Gratitude, Vintage Clothes e The End of the End. Curiosamente, todas começam da sexta faixa em diante, o bloco que Paul define como ‘retrospectivo.’

Mas há grandes achados sonoros também no início do disco. Paul toca bandolim na abertura, Dance Tonight, delicadamente acústica, com as brincadeiras vocais que ele tanto aprecia. Assim como em Chaos and Creation ele definia Jenny Wren como ‘filha de Blackbird’, Macca continua se divertindo dando à luz filhotes das orquestrações dos Beatles, como Mr. Bellamy e See Your Sunshine.

Mas é no gospel Gratitude que começam a pipocar as referências biográficas. A canção parece referir-se às recentes desilusões amorosas do ex-Beatle, que escancara o coração. ‘Bem, eu estava sozinho, eu estava vivendo com uma memória/Mas minhas frias e solitárias noites terminaram quando você me deu abrigo/Amado por você, eu era amado por você, sim, eu era amado por você/Queria mostrar minha gratidão/Minha gratidão a você/Eu devia parar de te amar/Pense onde você me colocou/Mas não quero fechar meu coração.’

Vintage Clothes é musicalmente mais alegre, menos ferida. Mas a letra também analisa a tendência a cultuar a nostalgia, que ele não recomenda. ‘Não viva no passado/ Não se agarre a algo que está mudando rápido/O que nós somos, é o que nós somos e o que vestimos/É roupa de brechó, roupa de brechó.’

The End of the End é uma canção crepuscular de Paul, quase como se ele, depois de ter vivido a virada dos 64 anos (que ele projetou com When I’m Sixty Four), de ter tentado ser feliz mais uma vez num novo casamento, bem, é como se ele examinasse agora a possibilidade da morte. When I’m Sixty Four tinha aquele tom leve, levemente irônico. Essa nova música, tão boa quanto, é de cortar o coração:

‘No fim do fim/É o começo de uma jornada/Para um lugar melhor/E isso não é ruim/Um lugar tão melhor/Deve ser especial/Não precisa ser triste/No dia em que eu morrer/Gostaria de piadas sendo contadas/E histórias da velhice sendo enroladas como tapetes/Nos quais crianças brincaram/E amarrotaram enquanto ouviam velhas histórias.’

No final, com Nod Your Head, de novo uma reverência de Paul à história com os Beatles. O jeito de cantar, a guitarra, tudo parece levar direto a Helter Skelter. E a sensação é muito boa.

Fala, Macca

‘Por vezes é um disco muito pessoal e muito dele é retrospectivo, desenhado da memória, como lembranças de garoto, de Liverpool e verões passados. O disco é evocativo, emocional, ‘rocking’, mas não posso resumir isso numa sentença. Há um medley de cinco canções perto do final que são propositadamente retrospectivas. Penso que isso acontece porque estou nesse
ponto de minha vida, mas então penso nas vezes que compus com John e muito daquilo também foi feito olhando para trás. É como eu mesmo em Penny Lane e Eleanor Rigby – ainda estou usando os mesmos truques! Sei que muita gente vai olhar algumas dessas canções e interpretá-las de modo diferente, mas sempre foi assim. O certo é que eu amo compor canções, então apenas escrevo e escrevo. Nunca realmente houve um ponto no qual comecei a compor a partir de um assunto específico. Inevitavelmente, o que penso está indo ao encontro do que estou fazendo. Espero que a diversão que tivemos possa se comunicar por si mesma às pessoas que irão ouvir esse disco. Tudo de bom’, Paul McCartney, abril de 2007

Deixe uma resposta